Neuromancer | William Gibson e sua influência no Cyberpunk

William Gibson é o autor da obra de ficção cientifica Neuromancer (1984), conhecida como um dos livros definitivos do gênero Cyberpunk.  Por mais que não seja um dos nomes mais populares para um público mais casual, é uma leitura obrigatória pra qualquer um que goste de Matrix, Ghost in The Shell e outras obras futuristas.

Enredo

A história do livro se passa num futuro distópico, na metrópole do Sprawl e é contada pelo ponto de vista do homem chamado Case, um ex-hacker degenerado e desempregado que é recrutado por Molly, a garota ciborgue, para trabalhar para um misterioso ex-militar chamado Armitage.

O objetivo do serviço deles é hackear a rica família Tessier-Ashpool e libertar duas poderosas inteligências artificiais (Wintermute e Neuromancer) que estão em posse dela. A escrita de Gibson é energética e rápida, os personagens podem mudar suas ações e ambientes em um simples parágrafo, remetendo ao sentimento de como qualquer coisa é feita de maneira rápida com a ajuda de tecnologias como super-aviões ou trens-bala para se locomover.

O vocabulário dos personagens porém, é uma faca de dois gumes. A leitura pode ser difícil alguém novo no gênero, pois o livro apresenta muitos termos, objetos e conceitos que não existiam na época e tiveram que ser explicados por meio de alegorias.

Ambientação

Gibson se destacou com Neuromancer pela sua técnica de dividir a narrativa entre dois espaços: o espaço real, aonde nossos corpos vivem e a “Matrix”.

No mundo real, os personagens vivem na Sprawl, uma megacidade construída no que antes era toda a costa Oeste dos Estados Unidos. O Sprawl é uma distopia multiétnica e cheia de tecnologia. Em todo esse futuro, é comum ver megacorporações que mandam nas cidades, cidadãos com próteses robóticas, drogas sintéticas e outras tecnologias futuristas e ainda não inventadas. Outro lugar aonde boa parte da história se passa é a cidade cujo “o céu acima do porto tinha cor de uma televisão fora do ar”, Chiba city. Contextualizando também, o forte impacto ambiental que o futuro trouxe consigo.

Na matrix, o espaço é descrito como um lugar sensorial, quase que físico. Lar de inteligências artificiais e grandes bancos de dados, esse ciberespaço serve como fundo das invasões de Chase e oferece alguns cenários lindos descritos no livro.

Influência 

Em seu lançamento, o Neuromancer não teve tanto sucesso comercial, porém, um tempo depois acabou ganhando certa notoriedade com os mais aficionados, chegando até a ganhar os prêmios Nebula, Hugo e Phillip K. Dick, considerados a tríade da ficção cientifica.

Ao lado do filme Blade Runner, o livro Neuromancer ajudou a firmar o Cyberpunk como um sub-gênero de ficção cientifica e suas influencias podem ser vistas em obras de diversas mídias até hoje. O termo ciberespaço e a Matrix foram, de certa maneira, inventados e popularizados no livro.

Também temos a visão futurista de Gibson, que acabou acertando em cheio em muitas direções que a tecnologia e humanidade iam caminhar.  Apesar disso, o autor costuma renunciar qualquer rótulo futurista e faz piada com o fato do seu livro não apresentar celulares, um dos principais avanços tecnológicos dos últimos anos. Hoje, mais de 30 anos após o livro, ironicamente, além de estarmos mais próximos das tecnologias do livro, também temos casos da realidade humana apática e derrotada mostrada nele.

Dito isso, Neuromancer é uma leitura válida tanto para fãs de histórias com heróis decadentes quanto para fãs de ficção cientifica em geral. Não espere uma bela aventura nem personagens super carismáticos, mas sim uma overdose de tecnologia com um ponto de vista diferente sobre sociedade.

  • Realmente valeu a pena esperar. Texto excelente migo. Neuromancer está para ganhar filme a séculos, uma das obras pioneiras no subgênero de Cyberpunk sendo ignorada é um ultraje. A Origem bebeu muito deste livro, inúmeras obras continuam se inspirando nela.

  • Mulher Mortífera

    Resenha primorosa, parabéns ao autor. Só vivo adiando e acabo não lendo este livro, Blade Runner influenciou ele demais, pelo que eu soube. Mas li Simulacros e Simulação, recomendo. Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês aborda sobre acidentes nucleares e novas tecnologias, a questão dos simulacros e da simulação. Este livro também influenciou Matrix e Cidade das Sombras que veio antes de Matrix.

  • Illyana Rasputín

    ótimo texto. Nunca foi muito fã do Cyberpunk, tenho mais admiração e acho mais legal o Steampunk.

  • Anderson Claudino Dos Santos

    Preciso reler novamente, na época achei a leitura difícil, pq usa alguns termos complicados, mas nos outros 3 contos que vem na edição eu fiquei mais a vontade, acho que pq já entendia um pouco da densidade daquele mundo, o Cyberpunk é um dos gêneros que eu mais curto, e espero que essa obra seja adaptada um dia, também fico no aguardo do game Cyberpunk 2077 e é claro, excelente matéria 🙂

  • Sim sim, o Blade Runner tem mais o lance de muitas partes do mundo estarem desertas também, mais o lance de ciborgues e robôs. É incrível como os dois enriqueceram muitas partes diferentes do gênero.

  • Te entendo. Foi um dos gêneros que achei mais dificil a entrada pois tem obras muito densas. Steampunk tem coisas maravilhosas também.

  • Muito obrigado Stella. Não me surpreende o tanto de coisa que deixam passar, tem temas, leituras e filmes muito densos. Mas é muito bom mesmo ver o tanto de coisa que bebe dessas fontes, o da Origem no caso eu não manjava D:

  • Sim, eu fiquei duas semanas sem ler até voltar pegar tudo de uma vez. Os personagens não foram feitos pra você se identificar ou ama-los. O glossário da edição brasileira ajuda bastante também na hora de entender toda essa densidade haha.

    E chamaram um diretor e roteirista pra filme já, mas acho muito dificil adaptarem alguns conceitos hoje em dia. Obrigado pelo elogio.