Recomendação | Huck, por Mark Millar (2016)

Mark Millar é um autor adepto de desconstruções de gêneros. Muitas de suas obras partem do questionamento de um conceito pré-estabelecido, levando sempre a devaneios interessantes. Como seriam os super-heróis em um contexto politizado e realista? Guerra Civil e Os Supremos. É possível ser um vigilante mascarado na vida real? Kick-Ass. E se o Superman fosse comunista? Entre a Foice e o Martelo, e assim por diante. “Huck”, publicado pela Image Comics em 2016, não foge a essa regra.

Na trama, acompanhamos Huck, um homem que trabalha como frentista de posto de gasolina em uma cidadezinha no interior dos EUA. Ele leva uma vida pacata e seu único objetivo é praticar boas ações, ajudando a todos ao seu redor. No entanto, sua personalidade calma e ingênua esconde um grande segredo: Huck possui poderes sobre-humanos, como superforça, supervelocidade e a capacidade de rastrear pessoas e objetos perdidos. Apesar de seus esforços para proteger esse segredo, sua paz chega ao fim quando a mídia descobre suas habilidades especiais.

“Huck” é basicamente “e se Superman nunca tivesse saído de Smallville?”. É possível traçar diversos paralelos entre o frentista e o Homem de Aço – não por acaso, já que Millar é um fã confesso do personagem – principalmente pelo altruísmo que ambos carregam, sempre buscando usar seus talentos especiais pelo bem do próximo. Huck, contudo, se destaca por sua grande ingenuidade, agindo de forma quase infantil, como um Forrest Gump superpoderoso. É impossível não simpatizar com sua humildade e inocência, ainda mais quando colocadas em contraponto com a malícia dos demais personagens.

A história é simples e direta ao ponto. Como é comum na obra de Millar, o dinamismo do roteiro e a montagem dos quadros têm um timing bem cinematográfico – ótima sugestão para os produtores de Hollywood, aliás. Dá para ler a história inteira em uma tacada, e eu diria que esse é um dos seus defeitos: a HQ é muito curta, não desenvolvendo o protagonista e o mundo que o cerca tão bem quanto poderia. Por outro lado, o texto traz a mesma qualidade dos outros trabalhos do autor, inclusive com alguns momentos bem tocantes.

O traço do brasileiro Rafael Albuquerque complementa muito bem a história, com seu estilo minimalista, se destacando pela expressividade corporal e facial dos personagens, deixando-os caricatos e realistas ao mesmo tempo. A única fraqueza do desenho, a meu ver, reside nas cenas de ação, já que não transmite tão bem o dinamismo dos movimentos, mas nada que prejudique o conjunto da obra.

Em suma, Huck é uma HQ com um conceito muito intrigante e ótima execução, deixando o leitor com um gostinho de quero mais. Além de divertida, a história é edificante e traz consigo uma bela lição de moral. Mais uma grande adição para a já extensa bibliografia de Mark Millar e uma leitura indispensável para qualquer fã do autor ou das histórias do Superman, pois esta acaba sendo uma bonita referência/homenagem à versão mais clássica do personagem.

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